Sessenta novos alfabetizadores do Programa Alfabetiza Sergipe participam, entre quinta-feira, 13, e sábado, 15, de uma formação pedagógica na Universidade Tiradentes (Unit), em Aracaju. A capacitação prepara os professores para o início das aulas de cerca de 4 mil novos estudantes, principalmente adultos e idosos, distribuídos pelas dez regiões de Sergipe. As turmas devem começar as atividades na próxima segunda-feira, 17.
A formação integra a segunda etapa de capacitação do programa e ocorre em um momento de ampliação das ações de alfabetização no estado. Segundo o gestor do Alfabetiza Sergipe na Secretaria de Estado da Educação (Seed), Everton Pereira, o grupo se soma aos cerca de 120 alfabetizadores que já atuam no programa, alguns deles com mais de uma turma em diferentes turnos. “Estamos na segunda leva de formação do nosso programa. Já temos cerca de 120 alfabetizadores que estão finalizando as aulas nesta semana e, agora, estamos com 60 novos alfabetizadores para iniciar mais 200 turmas. É uma ampliação importante do programa”, afirmou.
Durante os três dias de atividades, os professores conhecem e aprofundam a metodologia pedagógica desenvolvida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), responsável pela execução pedagógica do programa. A proposta parte dos conhecimentos e das experiências acumuladas pelos estudantes para construir o processo de aprendizagem a partir de palavras, situações e referências presentes em seu cotidiano.
As novas turmas terão carga horária de 144 horas, distribuídas em quatro módulos, com duração aproximada de quatro meses. Ao longo do processo, os alfabetizandos que estiverem inscritos no Cadastro Único (CadÚnico) e mantiverem frequência mínima de 75% poderão receber bolsas de incentivo, que totalizam até R$ 600 durante o curso.
Everton Pereira destacou que o programa vem ampliando o número de pessoas atendidas. Em 2025, o Alfabetiza Sergipe alfabetizou 4.500 pessoas, superando a meta inicial de 4 mil. Neste ano, cerca de 2.500 estudantes estão concluindo as atividades nesta etapa, enquanto outras 4 mil pessoas devem iniciar as aulas nas novas turmas. “A nossa meta é alfabetizar 8 mil pessoas em dois anos. Já superamos a meta anual no ano passado e a expectativa é chegar, neste ano, a algo entre 5 mil e 6 mil alfabetizados”, ressaltou o gestor.
O desafio, entretanto, ainda é significativo. Dados do Censo Demográfico de 2022 apontavam que Sergipe tinha cerca de 240 mil pessoas com mais de 15 anos que não sabiam ler e escrever. Para o gestor do programa, além da oferta das turmas, a iniciativa busca despertar o interesse dessas pessoas pela retomada dos estudos e criar condições para que a alfabetização faça sentido em suas vidas. “Vivemos em um mundo letrado e muitas pessoas olham ao redor sem compreender o significado daquilo que está escrito. A partir dessa metodologia, buscamos criar significado e fazer com que elas se alfabetizem de fato”, explicou.
Aprendizagem a partir da realidade
De acordo com a coordenadora pedagógica do Alfabetiza Sergipe, Marlúcia Amaral, a metodologia utilizada considera as especificidades do público atendido e articula teoria e prática a partir das experiências de vida dos alfabetizandos. “A proposta é trabalhar a partir do dia a dia, da convivência e da realidade dessas pessoas. É uma metodologia baseada em Paulo Freire, em que utilizamos palavras-chave do cotidiano e do contexto de vida dos estudantes para iniciar o processo de alfabetização”, explicou.
O material didático é organizado em quatro unidades temáticas. A primeira parte do “eu”, tendo o próprio nome do alfabetizando como ponto de partida. Em seguida, são trabalhados os temas família, trabalho e meio ambiente. Os conteúdos abordam situações concretas do cotidiano, como a compreensão de informações relacionadas à saúde, a leitura de placas e letreiros e outros textos presentes na vida social. “A partir do contexto deles, retiramos palavras para trabalhar as unidades silábicas, a formação de palavras, frases e textos. Todo o processo de aprendizagem nasce da realidade do próprio alfabetizando”, afirmou Marlúcia.
Ao final de cada unidade, são realizadas atividades avaliativas para acompanhar o desenvolvimento dos estudantes e orientar possíveis intervenções pedagógicas. O trabalho também inclui visitas às escolas, acompanhamento dos coordenadores pedagógicos e formações mensais com os alfabetizadores.
Segundo a coordenadora, os quatro meses de duração do curso são considerados um período viável para que os estudantes desenvolvam competências iniciais de leitura e escrita. “Nosso objetivo é que essa pessoa consiga ver uma placa e ler, olhar um letreiro e compreender. Ela poderá continuar aprofundando seus conhecimentos na Educação de Jovens e Adultos, mas esse primeiro passo representa uma mudança importante em sua vida”, destacou.
Formação permanente
Professora do Alfabetiza Sergipe pelo segundo ano consecutivo, Aline Tiara Silva Souza considera a formação fundamental para o trabalho com um público formado por jovens, adultos e, principalmente, idosos que, muitas vezes, chegam às salas de aula com pouca experiência escolar, mas com uma extensa trajetória de vida. “É muito importante que o programa continue ofertando capacitações para os seus alfabetizadores, porque a aprendizagem é constante. Na educação, surgem novas metodologias e novas formas de acessar melhor o nosso aluno. Além disso, esses momentos permitem compartilhar experiências, conquistas e desafios com outros colegas”, avaliou.
Para Aline, acompanhar a evolução dos estudantes é uma das experiências mais significativas do trabalho desenvolvido no programa. “Recebemos alunos que, muitas vezes, não sabem escrever o próprio nome. Saber escrever o nome é também uma questão de dignidade. Eles chegam com suas histórias, suas lutas, e acompanhar diariamente esse processo de aprendizagem é imensamente gratificante”, relatou.
A professora destaca que os resultados alcançados ao final do percurso mobilizam não apenas os estudantes, mas também suas famílias. “Quando vemos esse aluno lendo e escrevendo, é um ganho imenso. Muitas vezes, os familiares acompanham a conclusão, tiram fotos e agradecem. É uma forma de devolver dignidade a um público tão especial”, afirmou.
Alfabetiza Sergipe
Desenvolvido pelo Governo de Sergipe, por meio da Secretaria de Estado da Educação (Seed), o Programa Alfabetiza Sergipe tem como objetivo reduzir os índices de analfabetismo entre jovens, adultos e idosos, ampliando as oportunidades de acesso à leitura e à escrita. Com uma metodologia que parte das experiências e do cotidiano dos alfabetizandos, o programa oferece um percurso de 144 horas, distribuídas em quatro unidades, e prevê o acompanhamento pedagógico contínuo dos estudantes e professores.
Após a conclusão do ciclo de alfabetização, a proposta é que os estudantes tenham condições de dar continuidade à sua trajetória educacional, especialmente por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), ampliando suas possibilidades de participação social, autonomia e acesso a direitos.
